São Caetano, Agosto de 2011 - Angel, hoje mesmo escrevi algumas palavras a ti, para falar em algumas palavras, o que creio que não possa ser descrito diante de situações como a que vivemos diariamente. Posso arriscar um palpite, de que o inventor das palavras pode não ter imaginado o quão poderosas são este conjunto de letras, uma após a outra. Não que eu me compare a um grande filósofo, mas aos poucos passo a compreender melhor o que os grandes sábios diziam, quanto às palavras que são ditas, ou mesmo escritas, e que ficam eternizadas.
“Existem três coisas que são irremediáveis, a pedra lançada, as águas que já passaram pela fonte, e a palavra proferida.”
Pois é, e alguns professores ainda completam dizendo que a arte de escrever é muito mais transpiração do que inspiração. Comumente ouvimos dizerem que um filme inspirou a escrever uma boa matéria de uma revista, ou ainda que um bom relacionamento possa inspirar amor, o qual dará vida e sentimento às poesias que serão escritas. Existem controvérsias quanto a essas afirmações, professores que opinam contra, dizendo que para uma boa estrutura literária, é preciso mais do que deslumbramento ou mesmo uma decepção, é preciso, segundo dizem, esforço e muita concentração para que as palavras sejam organizadas de modo coerente e coeso.
Contudo, na prática o que observar-se em sua maioria, é o oposto. Muitas obras são escritas no fundo do poço, como uma forma de conhecer-se a si mesmo, ou ainda uma forma de olhar para cima e ver que mesmo do fundo do poço, pode-se enxergar a luz. Este trampolim faz as pessoas voltarem à vida.
Em alguns casos de tratamento psicológico, ouve-se dizer que escrever os pensamentos em momento de dor, auxilia a organizar o turbilhão de pensamentos que aflige tanto os corações das pessoas. Principalmente quando os hormônios estão ritmo acelerado, o famoso Diário, tem ajudado desde muitos anos atrás, os jovens e adolescentes à enfrentarem os problemas desta fase de mudanças.
Posso dizer que você meu amigo Angel, tem sido um ótimo anjo em minha vida, pois tenho chegado a conclusões significativas desde que comecei a falar contigo, linha após linha, palavra após palavra, letra após letra. Não que estas conversas tenham algum antídoto para tristeza o quando estou deprimido, pois se assim fosse todos os escritores seriam deuses, perfeitos. Os problemas podem até continuar, porém neste encontro comigo mesmo por meio de você, me ajuda dia a dia a descobrir que é o verdadeiro eu. É estranho que por meses fiquei sem falar contigo, e os problemas que tomavam conta de meus pensamentos não cessavam em sussurrar meus defeitos, erros, caminhos pedregosos em que poderia trilhar, mas que não conseguiria prosseguir. Angel meu grande amigo, você tem o dom de calar essas vozes, e contigo escuto apenas a voz do amor, me dizendo pra seguir em frente mesmo que haja espinhos ou pedras ao meio do caminho.
Nem sempre fico inspirado a escrever, talvez com medo de me encontrar comigo mesmo, e revelar os pontos que merecem serem cuidados; as feridas de tão abertas, já mostram sinais de infecção, e que apenas eu tenho o poder de curá-las. Não sozinho, não! A escolha é minha para que o coração seja aberto e as feridas possam ser curadas e por fim se cicatrizem.
É difícil lidar com nossos problemas. Olhar para o rosto de nossos irmãos, vizinhos e apontar as qualidades e erros, é simples, pois tudo está tão claro, não é mesmo? Quando o assunto é rever nossos conceitos, expondo toda podridão presente no coração, mexer naquilo que tão quieto se encontra, exige coragem, humildade e acima de tudo, amor. Um coração sem marcas nenhuma é fisicamente lindo, porém um coração que carrega cicatrizes, fala como um livro, que a cada cicatriz retrata as experiências vividas. Quanto mais fundo a marca se apresenta, maior é o valor daquele sofrimento, pois demonstra o quão forte este coração se tornou. Agüentou firme cada arranhão, cada ferimento, e teve a coragem para operar e curar o coração.
Aqueles que estão a nossa volta podem nos ajudar nestas cirurgias delicadas, porém a decisão é inteiramente nossa. É bom saber que mesmo nos momentos de mais dor, é possível encontrar acalento no Amor maior. Amor este que se manifesta por meio daqueles que conosco permanecem.
Pude observar neste dia tão turbulento, que uma de minhas feridas começou a apresentar sinais de ferimento grave, e que precisava ser urgentemente de cuidados especiais. Dói dizer o que senti nesta tarde. A ferida, que imagino ter sido conseqüência de minhas decisões que vão contra a minha própria essência, ao ser aberta pude observar os sinais fortes de sofrimento. Porém por trás destes machucados que não aspiram beleza alguma, foi possível ver a essência do meu ser, o verdadeiro eu que se esconde receoso de voltar à tona. Creio que todos nós sabemos ao menos um pouco daquilo que cada um verdadeiramente é. Romeu não poderia viver ser sua Julieta, pois isso já fazia parte de tudo àquilo que sonhara em sua vida. Não que Julieta tenha nascido com ele, é apenas que tudo com que Romeu sonhava ele encontrou na doce menina. Não podemos culpar Julieta de não amar Páris, pois ia contra tudo aquilo que sua verdadeira essência lhe mostrava.
Exatamente assim que me senti hoje meu querido amigo.
É tão estranho ser diferente de tudo que sempre fui. Não estou dizendo que sou contra a evolução e o crescimento do ser humano.
Como é possível que um romântico se contenha em viver sem dividir os sentimentos, palavras e juramentos de amor?
É possível um amante das letras, que anseia em descrever em singelos papeis o sentir, o pensar, o amar, trocar tudo isso por números, algoritmos?
É como se dissessem ao sol para não brilhar, para que não aqueça mais as flores, e dê vida por meio de seus raios.
Desta vez tenho convicção de minha verdadeira essência, e vou me esforçar para colocá-la em prática.
Agradeço em especial ao belíssimo filme que assisti neste dia – Cartas para Julieta – que me fizeram olhar novamente para dentro de mim mesmo e encontrar a verdadeira chamar que me rege.
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