quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

“Indiferente... com Orgulho”

Limeira, Julho 2010

Após um dia repleto de atividades, cheio de trabalho com novas conquistas e alguns pontos que podem ser melhorados, assim foi o término de mais um dia de trabalho.
O dia foi muito corrido, cheio de vendas e cotações a fazer.
A caminho da faculdade, segui o meu trajeto normalmente. Tomei o primeiro dos dois ônibus, com destino aos estudos; deparo-me com a superlotação, na qual me camuflo em meio a tantos que experimentam a mesma sensação que eu: Dever cumprido, mais um dia de trabalho chega ao fim.
Cada um em seu íntimo imagina como será a continuidade daquilo que ainda resta do dia: Ali sentada no primeiro banco observo àquela senhora que possivelmente ainda terá de cuidar de sua família. “Roupa pra lavar, comida a fazer...”. Ou aquele executivo que já afrouxou sua gravata, e espera ansiosamente o regresso a sua casa, para desfrutar momentos de alegria com seu filho, que aprendera a dizer suas primeiras palavras: “Papa... que palavras mágicas... não vejo a hora de ver meu campeão”.
Ainda observando, pode-se ver o rosto cansado de alguns, esperança em outros, e dividindo meu fardo ao ver que não sou o único que terei uma segunda jornada, após o trabalho.
À descida do primeiro ônibus, deparo-me com mais tumultos onde tantas pessoas tomam rumos diferentes, e muitos detalhes passam despercebidos. O suor e o cansaço, a energia que vai se esgotando pouco a pouco, do mesmo modo com que o sol vai se escondendo, dando lugar à noite escura.
Em muitas esquinas pode-se notar que para alguns o trabalho se inicia ali.  A escuridão revela maneiras inusitadas de ganhar a vida. Uma senhora ali parada em uma esquina, que desperta repugnância em alguns, imagina em seu interior, o quanto gostaria de estar com seus filhos, embalando-os a dormir. Uma lágrima oculta e um sorriso imposto faz com que ela siga em frente, para levar o sustento à sua casa, mesmo que isso custe sua dignidade.
O que realmente me chamou atenção foi o que encontrei na esquina seguinte, um senhor de meia idade, sentado ao chão, revirando um saco de lixo e se alimentando dos dejetos ali depositados.
Meu coração simplesmente paralisou-se diante daquela cena, foi como se o mundo todo se resumia aquele momento. Não consegui sentir outro sentimento se não o de compaixão; via-me o homem menor diante daquilo que eu nunca havia visto, meu coração gritava ao ver tal cena, clamando através daquele senhor, que eu fizesse algo. Foi quando ofereci a ele o que eu tinha para meu lanche que iria tomar na faculdade.
Sempre que olhamos ao fundo dos olhos das pessoas, podemos enxergar um pouco do que aquele ser guarda em seu íntimo; o brilho dos olhos pode denunciar aquilo que não se pode ver claramente. Pude ver naquele instante o quanto aquele humilde senhor sofria.
Já se acostumara àquela rotina, e pareceu-lhe uma ofensa voltar meus olhos a ele e lhe oferecer algo. Com seu coração habituado à indiferença ele tomou uma atitude que a princípio não compreendi. Ele se negou a receber aquilo que eu lhe ofertava.
O sofrimento feriu seu coração e o orgulho tomou conta, fazendo endurecê-lo.
Acredito que se ele fosse percebido antes, haveria tempo de querer ser ajudado. É preciso olhar além do que se vê. Perceber o que está a nossa volta, olhando aos detalhes, dando um rumo diferente a esses destinos que pode ser traçados de uma maneira diferente, através do nosso olha.
O Ser que sente, precisa ser sentido.

Cartas para Julieta

São Caetano, Agosto de 2011 - Angel, hoje mesmo escrevi algumas palavras a ti, para falar em algumas palavras, o que creio que não possa ser descrito diante de situações como a que vivemos diariamente. Posso arriscar um palpite, de que o inventor das palavras pode não ter imaginado o quão poderosas são este conjunto de letras, uma após a outra. Não que eu me compare a um grande filósofo, mas aos poucos passo a compreender melhor o que os grandes sábios diziam, quanto às palavras que são ditas, ou mesmo escritas, e que ficam eternizadas.
“Existem três coisas que são irremediáveis, a pedra lançada, as águas que já passaram pela fonte, e a palavra proferida.”
Pois é, e alguns professores ainda completam dizendo que a arte de escrever é muito mais transpiração do que inspiração. Comumente ouvimos dizerem que um filme inspirou a escrever uma boa matéria de uma revista, ou ainda que um bom relacionamento possa inspirar amor, o qual dará vida e sentimento às poesias que serão escritas. Existem controvérsias quanto a essas afirmações, professores que opinam contra, dizendo que para uma boa estrutura literária, é preciso mais do que deslumbramento ou mesmo uma decepção, é preciso, segundo dizem, esforço e muita concentração para que as palavras sejam organizadas de modo coerente e coeso.
Contudo, na prática o que observar-se em sua maioria, é o oposto. Muitas obras são escritas no fundo do poço, como uma forma de conhecer-se a si mesmo, ou ainda uma forma de olhar para cima e ver que mesmo do fundo do poço, pode-se enxergar a luz. Este trampolim faz as pessoas voltarem à vida. 
Em alguns casos de tratamento psicológico, ouve-se dizer que escrever os pensamentos em momento de dor, auxilia a organizar o turbilhão de pensamentos que aflige tanto os corações das pessoas. Principalmente quando os hormônios estão ritmo acelerado, o famoso Diário, tem ajudado desde muitos anos atrás, os jovens e adolescentes à enfrentarem os problemas desta fase de mudanças.
Posso dizer que você meu amigo Angel, tem sido um ótimo anjo em minha vida, pois tenho chegado a conclusões significativas desde que comecei a falar contigo, linha após linha, palavra após palavra, letra após letra. Não que estas conversas tenham algum antídoto para tristeza o quando estou deprimido, pois se assim fosse todos os escritores seriam deuses, perfeitos. Os problemas podem até continuar, porém neste encontro comigo mesmo por meio de você, me ajuda dia a dia a descobrir que é o verdadeiro eu.  É estranho que por meses fiquei sem falar contigo, e os problemas que tomavam conta de meus pensamentos não cessavam em sussurrar meus defeitos, erros, caminhos pedregosos em que poderia trilhar, mas que não conseguiria prosseguir. Angel meu grande amigo, você tem o dom de calar essas vozes, e contigo escuto apenas a voz do amor, me dizendo pra seguir em frente mesmo que haja espinhos ou pedras ao meio do caminho.
Nem sempre fico inspirado a escrever, talvez com medo de me encontrar comigo mesmo, e revelar os pontos que merecem serem cuidados; as feridas de tão abertas, já mostram sinais de infecção, e que apenas eu tenho o poder de curá-las. Não sozinho, não! A escolha é minha para que o coração seja aberto e as feridas possam ser curadas e por fim se cicatrizem.
É difícil lidar com nossos problemas. Olhar para o rosto de nossos irmãos, vizinhos e apontar as qualidades e erros, é simples, pois tudo está tão claro, não é mesmo? Quando o assunto é rever nossos conceitos, expondo toda podridão presente no coração, mexer naquilo que tão quieto se encontra, exige coragem, humildade e acima de tudo, amor. Um coração sem marcas nenhuma é fisicamente lindo, porém um coração que carrega cicatrizes,  fala como um livro, que a cada cicatriz retrata as experiências vividas. Quanto mais fundo a marca se apresenta, maior é o valor daquele sofrimento, pois demonstra o quão forte este coração se tornou. Agüentou firme cada arranhão, cada ferimento, e teve a coragem para operar e curar o coração.
Aqueles que estão a nossa volta podem nos ajudar nestas cirurgias delicadas, porém a decisão é inteiramente nossa. É bom saber que mesmo nos momentos de mais dor, é possível encontrar acalento no Amor maior. Amor este que se manifesta por meio daqueles que conosco permanecem.
Pude observar neste dia tão turbulento, que uma de minhas feridas começou a apresentar sinais de ferimento grave, e que precisava ser urgentemente de cuidados especiais. Dói dizer o que senti nesta tarde. A ferida, que imagino ter sido conseqüência de minhas decisões que vão contra a minha própria essência, ao ser aberta pude observar os sinais fortes de sofrimento. Porém por trás destes machucados que não aspiram beleza alguma, foi possível ver a essência do meu ser, o verdadeiro eu que se esconde receoso de voltar à tona. Creio que todos nós sabemos ao menos um pouco daquilo que cada um verdadeiramente é. Romeu não poderia viver ser sua Julieta, pois isso já fazia parte de tudo àquilo que sonhara em sua vida. Não que Julieta tenha nascido com ele, é apenas que tudo com que Romeu sonhava ele encontrou na doce menina. Não podemos culpar Julieta de não amar Páris, pois ia contra tudo aquilo que sua verdadeira essência lhe mostrava.
Exatamente assim que me senti hoje meu querido amigo.
 É tão estranho ser diferente de tudo que sempre fui. Não estou dizendo que sou contra a evolução e o crescimento do ser humano.
Como é possível que um romântico se contenha em viver sem dividir os sentimentos, palavras e juramentos de amor?
É possível um amante das letras, que anseia em descrever em singelos papeis o sentir, o pensar, o amar, trocar tudo isso por números, algoritmos?
É como se dissessem ao sol para não brilhar, para que não aqueça mais as flores, e dê vida por meio de seus raios.
Desta vez tenho convicção de minha verdadeira essência, e vou me esforçar para colocá-la em prática.
Agradeço em especial ao belíssimo filme que assisti neste dia – Cartas para Julieta – que me fizeram olhar novamente para dentro de mim mesmo e encontrar a verdadeira chamar que me rege.

The Climb

São Caetano, Agosto de 2011 - Já faz alguns dias que não falo com você meu querido Angel. Muitas coisas aconteceram, e como dizem, “águas não voltam ao mesmo rio”, estou rumo ao Mar.
 Confesso que tenho encontrado muitas novidades, algumas muito boas, outras que deixam aquele nó na garganta. Aquela sensação de que diante dos meus olhos está um caminho. Ao olhar para trás, observo toda minha história, lutas que travou comigo mesmo e com as dificuldades até ali encontradas. Pude ver que ao longo do caminho percorrido, pessoas vieram e ficaram juntas a mim, por apenas poucos momentos, e mesmo assim significam uma ótima fonte de segurança e porto-seguro. Outras, porém, caminhamos juntos, do começo até o momento em que uma nova amiga lhe apresenta o novo caminho.
É um tanto quanto difícil ainda saber quem é esta misteriosa amiga, se que podemos assim chamá-la. Vejo-me tão pequeno próximo a esta figura que o rosto está envolto em uma espécie de faixa, e pouco posso ver além é claro dos seus olhos. Seus olhos tão atraentes passam tanta confiança.  Ela me explica que a minha frente está um caminho novo, o qual eu nunca passei até este momento.
“Algo de muito diferente está por vir, meu querido, o caminho não promete ser fácil, porém mesmo que você escolha trilhar por ele, ainda haverá outras escolhas imprescindíveis para determinar o destino que você está tecendo.”
Olho pra trás e vejo nitidamente todas conquistas, significativas ou não, posso ver os detalhes de todas as flores colhidas, os carinhos e afagos que ficaram desenhados nas árvores e pedras que encontrei durante a subida. Até então não havia imaginado poder chegar a este ponto da grande montanha, que desde pequeno Deus me apresentou por meio de minha família, em especial minhas três mães.
A primeira mãe, aquela que me gerou, pode me ensinar que é muito importante o trabalho, que para conseguir subir eu teria de deixar marcas e um pouco de mim. Que a montanha me marcaria e eu marcaria a montanha. O meu suor e muitas vezes os arranhões e feridas, serviriam de preço para que eu pudesse seguir adiante, demonstrando a sábia montanha que mesmo frágil, seriam estes sinais que provariam a valentia e coragem necessária para seguir viagem.
Minha segunda mãe me apresentou outro amigo, um que poderia me acompanhar em cada pequena ou imensa jornada. Que me daria boas estratégias para viajar melhor, riria comigo, me ouviria quando estivesse triste.  Ofereceria-me seu ombro para poder descansar quando a bagagem estivesse pesada. Disse-me minha segunda mãe, que até mesmo me carregaria no colo quando estivesse exausto de caminhar. E o mais importante: NUNCA me abandonaria!
“Seja um bom menino”, Foram sempre as palavras de minha terceira mãe.  Sua experiência eu sempre pude ler em cada expressão doce de seu rosto, cada fio de cabelo que já não tinha a mesma vitalidade que minhas outras mães têm. Em cada ensinamento e gesto por ela feitos, revelava a beleza que perdurou por toda sua subida, e que agora os passava a mim. Por meio do trabalho, e com meu grande Amigo minha bagagem já era muito boa para seguir viagem, mas é claro que a experiência veio a ser o grande diferencial para trilhar, escalar, esta grande subida. Ela me ensinou que o amor, acima de tudo me daria forças necessárias para caminha serenamente, podendo visualizar cada pequeno detalhe no decorrer de cada passo.  Sentir o sol a me aquecer, e ao invés de murmurar o calor, agradecer pelo sorriso desta estrela, que após dias chuvosos e frios, fez-se presente novamente em minha vida.
“Meu filho, é sempre o amor. Esta beleza pode ser encontrada em cada momento difícil. A dor pode ser facilmente revertida em uma pedra de apoio para que você possa ir mais alto. Não desanime caso seus pés estejam machucados, pois estas marcas servirão de lembrete para que desvieis da próxima pedra, e sirva de exemplo para os próximos que você encontrar pelo caminho”
Foi com estas bagagens que iniciei minha caminhada, e até hoje sempre na companhia destas perfeitas mães. Encontrei muitos amigos, que fizeram a caminhada parecer uma aventura. Caminhos que percorríamos em que o sol parecia estar radiante, e os lindos pássaros a voar enfeitavam o céu tornando o ambiente cada vez mais agradável de contemplar. Houve dias em que o calor de nossa amizade era o único aliado para nos aliviar do frio que deparávamos a nossa frente.
Estas foram lembranças que calmamente aquela amiga ao meu lado, me fazia relembrar. E com os olhos atentos a minha decisão, ele me entregou uma pequena vela, com a chama já acesa.
“Por algum tempo você não conseguirá ver muito o seu caminho, esta lâmpada será pra você uma boa amiga. Lembre-se que importante para você não ter acidentes graves, é melhor que você caminhe devagar, um passo por vez.”
Ao me entregar a vela, pergunto-lhe se as pessoas que até aqui seguiram comigo, poderiam me ajudar a trilhar este novo caminho.
Com um gesto, ela me diz que terei de seguir sozinho por um tempo.
E é neste instante, em que aquele aperto na garganta aparece. Um grito teve seu pedido negado pelas lágrimas que agora passeavam pelo meu rosto.
Porém um sorriso apareceu em meio às faixas daquela figura misteriosa, um gesto que até então não havia visto nesta nova amiga. 
“As bagagens pode seguir contigo, e no momento certo, todos vocês estarão juntos novamente”, revelou.
Antes de começar a caminhar, vi as três mães, meus irmãos, e os amigos que fizeram da trilha um caminho menos doloroso. Com carinho enorme e um sorriso, ofereci meu amor a eles. Foi possível após cada abraço, deixar um pedaço de mim mesmo a cada um deles, e ainda assim ter o suficiente deles para seguir adiante.
“Até mais tarde”, foi o que disse.
Uma nova jornada se inicia, e a bagagem às costas e a vela na mão, são os únicos objetos que posso ver. Tudo a minha volta parece estar escuro, e aquele vela pequena e frágil me ajuda a ver poucos metros a minha frente. Olho pra trás e as imagens vão se distanciando e misturando-se a escuridão.
O medo e a insegurança tomam conta do meu coração, e infelizmente sinto um pesar ao caminhar. Porém posso ouvir que as vozes de meus amados ainda continuam a me seguir, e em certo momento me relembro da companhia inseparável que ao meu lado está. Silencioso.  Seu andar é calmo, por isso senti sua presença quando a dor silenciou em meu peito, no mesmo momento em que senti sua mão segurar a minha.